Ninguém perguntou à bebê
- Rebecca

- há 3 dias
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Ontem completei dois meses de idade e cheguei a uma conclusão:
vida de bebê não é essa vida maravilhosa que vivem anunciando, não.
Os adultos olham para mim, suspiram e começam a falar:
— Ah, como é bom ser bebê! Não tem preocupação nenhuma. Não tem nenhum boleto para pagar!
Boleto eu realmente não pago, nisso vou concordar.
Mas existem outras contas que alguém precisa considerar.
São contas cobradas em espera, dependência e frustração.
E quase todas vencem antes que entendam minha reclamação.
Para começar, eu dependo de alguém até para limpar a minha própria bunda.
Pensem no tamanho do problema e na dependência profunda.
Eu faço cocô e preciso esperar alguém perceber,
me carregar até o trocador e resolver o que fazer.
Tiram toda a minha roupa e invadem minha privacidade,
sem aviso, sem licença e com muita naturalidade.
Mal fomos apresentados!
E não basta a exposição, o constrangimento e o cheiro.
Eu ainda preciso escutar cada comentário alheio:
— Nossa, quanto cocô!
— Esse cheiro é natural?
— Hoje está mais verde.
— Está mais líquido.
— Será que isso é normal?
Ficam analisando cor, quantidade, consistência e odor,
como se eu tivesse entregado um trabalho para o professor.
Às vezes, ainda chamam outra pessoa para participar:
— Vem aqui ver esse cocô!
E lá vem mais alguém, prontinho para olhar.
Quando sou eu, ninguém resiste: todo mundo quer comentar.
Vejam o tamanho da minha completa humilhação:
eu faço o que todo mundo faz e viro assunto da reunião.
Quando é um adulto, ninguém chama a família para avaliar.
Quando sou eu, todos se juntam e começam a opinar.
Daqui a pouco vão criar um grupo para discutir o meu cocô
e eleger um moderador para organizar quem comentou.
Depois, ainda preciso confiar que vão limpar tudo direito,
colocar a fralda no lugar e não me apertar de qualquer jeito.
Eu tento avisar quando alguma coisa está desconfortável,
mas ninguém entende a mensagem. É uma situação lamentável.
Eu consigo me expressar.
Eu choro com bastante convicção.
O problema é que cada pessoa inventa uma interpretação.
Às vezes, estou chorando porque quero colo e proteção,
mas surge uma mamadeira diante de mim como solução.
Eu viro o rosto.
Empurro o bico com a língua.
Faço cara feia.
Demonstro claramente toda a minha fadiga.
Mas alguém me observa e conclui com enorme convicção:
— Deve estar com fome.
Não estou com fome. Essa não é a questão.
Eu só quero ficar encostada no peito de alguém e ouvir seu coração.
Quero sentir um braço em volta de mim e ter certeza de que não estou sozinha neste mundão, onde tudo é claro demais, frio demais e barulhento demais.
Socorro, eu só tenho dois meses. Será que estou pedindo demais?
Outras vezes, eu realmente estou faminta e quero me alimentar.
Choro, mexo os braços, fecho as mãos e começo a procurar.
Procuro leite por todos os lados, com evidente agitação,
mas alguém me observa por dois segundos e anuncia a conclusão:
— Acho que é cólica.
E lá vêm as gotas, apresentadas como salvação.
Aquelas gotas entram na minha boca com um gosto forte e amargo.
Cai a primeira e eu paro, porque preciso processar o estrago.
Fico testando com a língua, tentando entender aquele sabor.
Antes que eu chegue a uma resposta, vem outra com o mesmo amargor.
Eu provo mais um pouco.
Testo de um lado e depois do outro.
Faço movimentos com a boca, analisando aquele gosto.
Então vem mais uma gota para completar a experiência,
e eu continuo concentrada naquela estranha ocorrência.
Enquanto tento entender tudo, acabo esquecendo a reclamação.
Não porque acertaram o problema, mas porque distraíram minha atenção.
Passam-se alguns minutos e eu paro de chorar por causa da novidade.
Pronto: para os adultos, aquilo confirma completamente a verdade.
— Viu? Era cólica! O remédio já está fazendo efeito!
Não era. Eu continuo com fome do mesmo jeito.
A hipótese não se sustenta, mas todos celebram a conclusão.
Agora estou faminta e com um gosto ruim como recordação.
Parabéns a todos os envolvidos pela brilhante investigação!
Conseguiram errar o problema e ainda festejar a solução.
Quando estou com cólica de verdade, também não é fácil, não.
Minha barriga dói, eu me contorço e tento explicar a situação.
Fico vermelha.
Estico as pernas.
Faço força.
Choro com dedicação.
E imediatamente começa uma enorme operação.
Primeiro oferecem leite.
Depois oferecem colo.
Depois me colocam deitada.
Depois me levantam de novo.
Depois balançam para a direita.
Depois balançam para o outro lado.
Depois param de repente, como se tudo estivesse solucionado.
Depois afrouxam minha fralda.
Depois apertam minha barriga.
Depois fazem bicicleta com as minhas pernas,
como se pedalar resolvesse todas as minhas penas.
A essa altura, começo a chorar ainda mais, já sem saber o que fazer.
Além da cólica, essas pessoas não param de me virar e mexer.
E a solução que poderia me distrair da dor e diminuir minha aflição,
as famosas gotas amargas, desaparecem completamente da equação.
Quando não é cólica, as gotas chegam com velocidade.
Quando é cólica de verdade, ninguém lembra dessa possibilidade.
Como continuo chorando, aumenta ainda mais a movimentação.
Tentam outro colo, outro balanço, outro ângulo e outra posição.
E eu, no meio daquele tumulto, querendo apenas ser atendida,
penso que é muita atividade para uma barriga dolorida:
— Gente, hoje que é cólica de verdade, ninguém vai buscar as gotas, não?
Também não consigo dormir sozinha quando o sono vem chegando.
Preciso esperar que alguém perceba que meus olhos estão fechando.
Não consigo coçar o lugar que começou a incomodar.
Só posso mexer o corpo inteiro e esperar alguém adivinhar.
Não consigo ajeitar minha posição se alguma coisa saiu do lugar.
Fico ali resmungando até alguém resolver me arrumar.
Não consigo pegar uma coberta quando o frio vem me alcançar.
E também não consigo retirar a roupa quando começo a esquentar.
Às vezes, uma pessoa olha para mim e diz, encantada:
— Nossa, como ela é linda.
É, minha senhora. Mas a vida não facilita nem para princesas como eu.
Estou suando bicas embaixo desse macacão — e ninguém ainda percebeu.
Enquanto todos observam como meu rostinho é delicado e perfeito,
eu estou cozinhando em silêncio dentro daquele traje bem-feito.
E, como se tudo isso já não fosse suficiente para a confusão,
às vezes, uma mão aparece na frente da minha visão.
Eu fico olhando para ela, tomada pela investigação:
— De quem é essa mão?
Ela vem, passa diante dos meus olhos, bate na minha testa e vai embora.
Depois reaparece sem explicação, a qualquer dia e qualquer hora.
Às vezes, consigo agarrar a tal mão e colocá-la na boca, animada.
Ela parece gostosa, mas, no fim, não dá em nada.
Eu chupo.
Eu provo.
Insisto, esperando algum resultado.
Não sai leite, não mata a fome.
Produto superestimado.
Ser bebê é viver dentro de um corpo que ainda não sei comandar,
cercada de pessoas que me amam, mas precisam adivinhar.
E elas tentam.
Tentam mesmo.
Analisam cada movimento meu com enorme atenção.
Observam minhas mãos, meus olhos, minha boca e minha expressão.
Discutem se é fome, sono, cólica, fralda, frio ou calor,
ou se estou apenas precisando de aconchego, silêncio e amor.
Parece uma reunião de emergência convocada pelo meu choro.
Cada um apresenta uma hipótese, uma teoria e um protocolo.
Nem sempre acertam de primeira.
Nem de segunda.
Às vezes, nem de terceira.
Mas continuam procurando a resposta verdadeira.
Talvez seja isso que torne a minha vida menos complicada:
eu ainda não consigo falar, mas estou sempre acompanhada.
Eu ainda não sei dizer “mamãe”.
Não sei dizer “papai”.
Não sei dizer “estou com fome” ou “minha barriga é que dói”.
Não sei dizer “essa roupa está quente” ou “minha fralda apertou”.
Nem “guardem essas gotas, porque o problema ainda nem começou”.
Mas eles ficam ali.
Mesmo sem entender minhas palavras, não vão embora.
Continuam perto de mim a qualquer dia e qualquer hora.
Quando tenho fome, alguém prepara meu leite com cuidado.
Quando estou suja, alguém troca minha fralda e fica ao meu lado.
Quando sinto dor, alguém tenta descobrir onde está doendo.
Quando tenho medo, alguém me pega no colo e fica me protegendo.
Por isso, apesar de toda essa dependência e confusão,
eu sei que sou uma bebê de sorte, cercada de amor e atenção.
Mesmo assim, confesso: eu não vejo a hora de crescer.
Quero descobrir tudo o que ainda não consigo fazer.
Quero aprender a andar, abrir a geladeira, escolher o que vou comer.
Mas, principalmente, quero aprender a falar.
Isso resolveria muita coisa por aqui e diminuiria tanto palpite no ar.
Eu poderia finalmente explicar, sem precisar berrar:
— É fome, não é cólica. Guardem as gotas no armário.
A fralda está apertada e agora eu quero colo.
Nessa ordem, por favor, sem relatório extraordinário.
Mas dizem que, quando eu crescer, talvez eu vá compreender:
— Ai, quem me dera bebê voltar a ser…
Talvez seja verdade.
Talvez um dia eu sinta saudade de tanta atenção dedicada,
de ter alguém observando cada movimento e cada respirada.
Talvez eu sinta saudade de quem atravessa a madrugada inteira,
só porque ouviu um pequeno resmungo vindo da minha cabeceira.
Talvez eu sinta saudade de ser carregada, protegida e amada,
mesmo quando minha mensagem foi interpretada de forma errada.
Mas, por enquanto, continuo firme na mesma conclusão:
ser bebê não é fácil, não.
Agora, com licença.
O sono finalmente chegou.
Vou começar a chorar.
Façam suas apostas.
O plantão começou.
—— Crônica by Rebecca






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