Não Romantize Minha Maternidade
- Tacia
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- 11 de jun.
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de jun.

Eu estou cansada.
Na verdade, eu estou exausta.
Olho para a minha pequena ninando no meu colo e, imediatamente, me vem uma vontade de chorar. E é um choro difícil de explicar, porque ele não tem uma causa só. É choro de felicidade, de descrença, de amor. Mas, às vezes, também é choro de desespero.
Sim, desespero.
Porque meu corpo está diferente, meus hormônios estão enlouquecidos e minha cabeça, que mal consegue lembrar se eu almocei, já está planejando a festa de 15 anos dela. Enquanto isso, no presente, eu tento decifrar o mundo inteiro em um choro: é fome? É dor? É sono? É fralda cheia? É colo? É cólica? É só vontade de encostar em mim?
E, quando acho que entendi, descubro que talvez tenha entendido errado.
Se penso que é dor, logo me pergunto se estou deixando minha filha passar fome. Se ofereço outra mamadeira, depois descubro que talvez ela só quisesse encostar a barriguinha no meu peito para aliviar algum incômodo. Mas, até chegar a qualquer conclusão, eu já atravessei um mar inteiro de possibilidades. Já tentei, já errei, já voltei atrás, já me culpei.
E a culpa, ah, a culpa chega rápido.
Como eu não percebi antes? Como pude achar que era uma coisa quando era outra? Como deixei minha bebê chorar? Tadinha da minha princesa.
Então, choro eu também.
Porque essa sou eu agora: uma mãe tentando acertar tudo, querendo ser perfeita, não conseguindo — porque ninguém consegue — e, ainda assim, se culpando como se fosse obrigação dar conta de tudo com serenidade, intuição e um sorriso no rosto.
E isso cansa.
Cansa muito.
Como se não bastasse a cobrança que já nasce junto com uma mãe de primeira viagem — especialmente uma mãe impaciente, ansiosa, cheia de expectativas e querendo controlar o incontrolável — ainda existe a cobrança do mundo.
Toda vez que alguém me pergunta se estou amamentando, eu respiro antes de responder. Não porque eu tenha vergonha da resposta. Mas porque, muitas vezes, eu já sei que ela virá acompanhada de uma sentença disfarçada de conselho.
Porque, na maternidade, parece que mesmo quando a gente está certa, ainda assim está errada.
Se dou leite materno, alguém pergunta por que não complemento com fórmula.
Se dou fórmula, alguém pergunta por que estou dando fórmula.
Se ordenho, alguém pergunta por que não coloco direto no peito.
Se dou mamadeira, alguém fala sobre vínculo.
Se insisto, estou sofrendo à toa.
Se paro, desisti cedo demais.
Sempre existe uma pergunta. Um olhar. Uma sugestão. Uma experiência de alguém. Uma verdade absoluta dita por quem não está vivendo o meu puerpério, no meu corpo, com a minha bebê, dentro da minha casa, no meio da minha madrugada.
E eu sei: maternidade é linda.
É mesmo!
É única. É profunda. É transformadora. Existe beleza no cheiro dela, no peso do corpinho dormindo no meu colo, na mãozinha procurando a minha roupa, no silêncio raro depois de uma crise de choro. Existe amor em cada detalhe. Um amor tão grande que às vezes até assusta.
Mas não use essa beleza para apagar o resto.
Não romantize a minha maternidade por mim.
Não transforme minha exaustão em poesia antes de me oferecer um copo d’água. Não chame de “fase linda” aquilo que, em alguns dias, eu atravesso contando os minutos para conseguir tomar banho. Não coloque laço no meu cansaço só porque existe um bebê dormindo bonito no meu colo.
Antes de me dizer que passa rápido, pergunte como eu estou passando por isso agora.
Antes de dizer que eu vou sentir saudade, reconheça que hoje pode estar sendo difícil.
Antes de defender uma maternidade ideal, olhe para a mãe real que está aqui: descabelada, sensível, confusa, tentando, errando, aprendendo e amando de um jeito tão intenso que chega a doer.
Eu não preciso que romantizem minhas escolhas.
Eu preciso que respeitem.
Não preciso que transformem meu puerpério em uma cena bonita para caber na ideia que o mundo tem de maternidade. Preciso que entendam que amor e exaustão podem existir no mesmo colo. Que gratidão e desespero podem dividir o mesmo choro. Que uma mãe pode amar profundamente sua filha e, ainda assim, estar no limite.
A minha maternidade não é menos bonita porque é difícil.
Ela não é menos verdadeira porque tem fórmula, mamadeira, bomba, culpa, medo, choro e noites mal dormidas.
Ela não é menos amorosa porque eu não dou conta de tudo.
Então, por favor, não romantize a minha maternidade.
Acolha.
Respeite.
Ofereça ajuda.
Guarde o julgamento.
Porque eu já estou carregando muita coisa.
E, mesmo cansada, mesmo exausta, mesmo me sentindo insuficiente em tantos momentos, eu sigo aqui. Com ela no colo. Com o coração do lado de fora do peito. Tentando ser, todos os dias, a melhor mãe que eu consigo ser.
Não a mãe perfeita.
A mãe possível.
A mãe dela.






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