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Era uma vez três porquinhos… na era do ecologicamente (in)correto

  • Foto do escritor: Tacia
    Tacia
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura
Era uma vez três porquinhos… na era do ecologicamente (in)correto

Era uma vez três porquinhos: Cícero, Heitor e Prático.


Como todo porquinho que chega a certa idade, os três decidiram sair de casa e construir o próprio patrimônio.


Cícero, que não gostava muito de perder tempo com obra, escolheu fazer sua casa de palha. Era barata, natural, biodegradável e, na cabeça dele, absolutamente sustentável.


Construiu sua casinha em dois tempos, colocou uma cadeira na varanda e mal tinha se sentado para admirar o resultado quando ouviu três batidas na porta.


TOC. TOC. TOC.


Quando abriu, deu de cara com o Lobo Mau usando colete, crachá, óculos escuros e carregando uma prancheta.


— Bom dia. Fiscalização.


Cícero engoliu seco.


— Fiscalização de quê?


— Ainda estou verificando.


O lobo caminhou em volta da casa, fez algumas anotações, fotografou a parede, puxou um pouco da palha e balançou a cabeça em desaprovação.


— Senhor Cícero, infelizmente encontrei graves irregularidades.


— Graves?!


— Gravíssimas.


— Mas minha casa é de palha! É natural!


— Exatamente.


O lobo consultou a prancheta.


— O senhor possui algum estudo comprovando que a utilização de palha nesta construção não configura apropriação cultural das técnicas construtivas tradicionais de povos originários?


Cícero piscou.


— O quê?


— O senhor ouviu.


— Mas eu só fiz uma casa de palha.


— Sem consulta prévia às comunidades potencialmente afetadas.


— Mas não tem comunidade nenhuma aqui!


O lobo anotou na prancheta: Negacionismo de impacto social. Agravante.


— Eu não falei isso!


— Senhor Cícero, não dificulte a fiscalização.


Cícero começou a ficar nervoso.


— E o que acontece agora?


O lobo fechou a prancheta.


— Infelizmente, terei de soprar, soprar, soprar até sua casa derrubar.


— Mas por quê?!


— Medida cautelar.


E antes que Cícero pudesse argumentar, o lobo encheu o peito.


Soprou.


Soprou.


E soprou.


A casa inteira voou pelos ares.


Cícero saiu correndo até a casa do irmão Heitor.


Heitor tinha escolhido fazer a casa de madeira.


— Aqui você está seguro — garantiu ele. — Madeira é renovável. Todo mundo sabe.


Cícero ainda estava contando o que havia acontecido quando ouviram: TOC. TOC. TOC.


Era o lobo. Prancheta na mão.


— Fiscalização.


Heitor abriu a porta já indignado.


— Antes que o senhor fale qualquer coisa, minha casa é de madeira. Material natural, renovável, captura carbono...


O lobo ergueu uma sobrancelha.


— Interessante.


Andou pela casa. Bateu na madeira. Cheirou uma viga.


— Documento de rastreabilidade.


— Como?


— Da madeira.


— Não tenho.


— Certificação de origem?


— Não.


— Cadeia de custódia?


— Não.


— Georreferenciamento da área de extração?


— Meu amigo, eu comprei isso na madeireira do bairro!


O lobo abriu um sorriso profissional.


— Então o senhor não consegue comprovar que esta madeira não veio de área de desmatamento ilegal.


— Mas o senhor também não consegue provar que veio!


O lobo fez outra anotação: Inversão indevida do ônus fiscalizatório.


— Isso existe?


— Agora existe.


Heitor olhou para Cícero. Cícero apenas balançou a cabeça. Ele já sabia o que viria em seguida.


O lobo fechou a prancheta.


— Infelizmente, terei de soprar, soprar, soprar até sua casa derrubar.


E soprou.


Soprou.


Soprou.


A madeira voou para todos os lados.


Os dois irmãos saíram correndo para a casa de Prático.


Quando chegaram, estavam desesperados.


— Prático! Você está ferrado!


Prático abriu a porta.


— O que aconteceu?


— O lobo derrubou nossas casas!


— Por quê?


— A minha porque era de palha e a do Heitor porque era de madeira.


Prático pensou por alguns segundos.


Cícero apontou para a parede.


— E a sua é de tijolo! Tijolo! Você torrou barro numa temperatura de sabe-se lá quantos graus! Isso deve emitir carbono até 2047!


— Calma — disse Prático.


— Calma nada! — respondeu Heitor. — Se madeira deu problema, isso aí vai ser interditado antes dele terminar de preencher a prancheta.


Prático sorriu.


— Eu me preparei.


E realmente tinha se preparado: a casa de Prático tinha tijolos ecológicos, o telhado tinha cobertura vegetal, havia painéis solares, sistema de captação de água da chuva, reuso da água das pias para irrigação, iluminação natural, ventilação cruzada, composteira, horta orgânica, torneiras com redutor de vazão, madeira certificada apenas nos móveis.


Até a descarga tinha dois botões: um para o número um e outro para o número dois.


— Prático — perguntou Heitor —, por que você tem quatro lixeiras diferentes na cozinha?


— Longa história.


Não tiveram tempo de continuar.


TOC. TOC. TOC.


Prático abriu a porta.


O Lobo Mau estava ali. Prancheta na mão.


— Fiscalização.


— Entre — disse Prático.


O lobo entrou desconfiado.


Olhou os painéis. Olhou a cisterna. Olhou o telhado verde. Olhou a composteira. Conferiu os documentos. Certificados. Laudos. Licenças. Notas fiscais. Rastreabilidade.


Até o manual da torneira Prático tinha guardado.


O lobo começou a ficar incomodado.


Virou uma página. Depois outra. Coçou o focinho.


— Essa água aqui?


— Da chuva.


— O senhor capta?


— Sim.


O olho do lobo brilhou.


— Achei.


— Achou o quê?


— Exploração de recurso hídrico atmosférico sem autorização.


Prático ficou em silêncio.


— Desculpa?


— O senhor está retirando água da atmosfera.


— É chuva.


— Exatamente.


— Isso não existe.


O lobo anotou.


— Existe para mim.


Prático respirou fundo.


O lobo olhou para o telhado.


— E esses painéis?


— Energia solar.


— Produção mensal?


Prático mostrou o aplicativo.


O lobo analisou.


— Produz mais do que consome.


— Às vezes.


— Enriquecimento energético sem causa.


— O QUÊ?


Cícero colocou a mão no ombro do irmão.


— Não adianta.


O lobo continuou.


Passou a mão pela parede. Observou os tijolos. Deu alguns passos para trás.


— Temos outro problema.


— Qual?


— Seus tijolos estão alinhados demais.


Prático fechou os olhos.


— E?


— Podem interferir na circulação natural dos ventos.


— Uma parede?!


— Senhor Prático, eu não faço as regras.


— Você acabou de inventar as regras!


O lobo pareceu ofendido.


— Eu prefiro o termo “interpretação normativa”.


Prático ficou alguns segundos olhando para ele.


Então o lobo baixou a voz.


— Mas podemos resolver.


— Resolver como?


O lobo fechou a prancheta devagar.


— Para eu concluir meu relatório, falta apenas... um detalhe.


— Que detalhe?


— Um gesto de boa vontade.


Prático franziu a testa.


— Que tipo de gesto?


— Alguma maneira de todos sairmos satisfeitos desta fiscalização.


Cícero arregalou os olhos.


Heitor ficou boquiaberto.


— Espera aí — disse Cícero. — Você derrubou a minha casa porque estava irregular.


— Correto.


— Derrubou a dele porque estava irregular.


— Correto.


— E agora que a casa está certa você quer dinheiro para dizer que ela está certa?!


O lobo ajeitou o crachá.


— Eu jamais utilizei a palavra dinheiro.


Prático abriu a porta.


— Pode ir embora.


— Senhor Prático...


— Eu não vou lhe dar nada. Faça seu trabalho direito.


O lobo ficou vermelho.


— Muito bem.


Pegou a prancheta outra vez.


— Nesse caso, mantenho as três infrações.


— São absurdas.


— Acrescentarei desacato.


— Eu só disse que são absurdas!


— Reincidência.


Prático apontou para a rua.


— Fora.


O lobo bufou.


— Então eu vou soprar, soprar, soprar até sua casa derrubar!


Encheu o peito.


Soprou.


Nada.


Respirou fundo.


Soprou de novo.


Nada.


Uma terceira vez.


Nada.


O lobo ficou curvado, com as mãos nos joelhos, tentando recuperar o ar.


Prático abriu a porta.


— Terminou?


O lobo levantou um dedo, ainda ofegante.


— Ainda... não...


— Vai embora.


E Prático bateu a porta.


Lá dentro, os três comemoraram.


Lá fora, o Lobo Mau estava inconformado.


Olhou para as paredes. Olhou para as janelas. Olhou para o telhado.


Se não conseguia derrubar a casa, entraria nela.


Deu a volta procurando uma chaminé.


Nada.


Deu outra volta.


Nada.


Subiu num muro para enxergar melhor.


Nada.


Finalmente gritou:


— Senhor Prático!


A janela abriu.


— O que foi agora?


— Cadê a chaminé?


— Não tem.


— Como assim não tem?!


— Não vou ficar queimando lenha e emitindo CO₂.


O lobo ficou parado. Olhou a casa. Olhou a prancheta. E sorriu.


— Achei outra irregularidade.


Prático quase caiu da janela.


— QUAL?!


— Ausência de chaminé.


— Você acabou de falar que eu não posso poluir!


— Uma coisa não tem relação com a outra.


— COMO NÃO?!


O lobo apontou a caneta para a casa.


— A chaminé integra a identidade arquitetônica das residências de porquinhos desde 1840. Sua ausência caracteriza descaracterização do patrimônio cultural imaterial.


Prático ficou mudo.


Heitor apareceu na janela.


— Mas a casa acabou de ser construída!


— Patrimônio preventivo.


— Isso também não existe!


— Existe para mim.


O lobo decidiu subir no telhado mesmo assim. Escalou a lateral da casa, agarrou-se numa calha, colocou uma pata no telhado e...


CRAC.


Pisou em cheio num painel solar.


— MEU PAINEL! — gritou Prático.


O lobo congelou.


Olhou para o painel quebrado. Olhou para Prático.


Depois, lentamente, pegou a prancheta.


— Painel fotovoltaico danificado.


Prático não acreditava no que estava ouvindo.


— FOI VOCÊ QUE QUEBROU!


— Falta de manutenção preventiva.


— VOCÊ PISOU NELE!


— Senhor Prático, não interfira na fiscalização.


Foi nesse momento que Cícero percebeu uma coisa.


— Prático...


— O quê?!


— Sua câmera está gravando?


Prático olhou para a câmera de segurança instalada no beiral.


Piscou.


Sorriu.


— Está.


O lobo parou de escrever.


— Câmera?


— Com áudio.


Silêncio.


— Desde quando?


— Desde antes de você pedir o “gesto de boa vontade”.


O lobo guardou a prancheta.


— Bem... acredito que conseguimos esclarecer todos os pontos.


Desceu do telhado com uma velocidade impressionante.


Prático abriu a janela.


— Senhor Lobo!


Ele parou.


— O quê?


— E o painel?


O lobo olhou para trás.


— Abra um protocolo.


E saiu correndo.


Os três porquinhos ficaram olhando enquanto ele desaparecia pela estrada.


Cícero suspirou.


— Então quer dizer que sua casa estava certa.


Prático olhou para o painel quebrado.


— Mais ou menos.


Heitor apontou para a garagem.


— E aquele Fiat 147 ali?


Prático imediatamente fechou o portão.


— Não muda de assunto.


E assim os três porquinhos viveram felizes para sempre.


Ou, pelo menos, até a próxima fiscalização.


Porque hoje em dia até para viver feliz para sempre é bom guardar os comprovantes.



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